segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Livro "Failure is not an option"


Sempre apreciei ver filmes e documentários com a exploração espacial como "pano de fundo". Filmes como Apollo 13Right Stuff, ou a série From Earth To The Moon, são a referência. Mas até um simples lançamento do Space Shuttle, que passa por segundos nos noticiários, é suficiente para ficar colado à televisão.
Recentemente andei a divagar pelas páginas da Wikipédia, a ver o que existia escrito sobre o estado da arte de computadores usado no programa espacial Apollo. Reparei nas inúmeras referências feitas ao livro "Failure is not an option" de Gene Kranz. O nome do autor não me era familiar. Mas depois de investigar um pouco mais, apercebi-me que esta "personagem secundária" consegue aparecer recorrentemente em todos os documentários e em filmes, no Centro de Controlo de Missão (MCC) em Houston. Este é o local com o qual os astronautas estão sempre em contacto e que está constantemente a monitorizar e a controlar a nave espacial, prontos para responder aos imprevistos.
O livro é uma biografia do próprio autor mas concentrada no seu trabalho para a NASA durante os anos 60 e inicio dos anos 70. Este foi o período áureo do programa espacial americano (Mercury, Gemini e Apollo), no qual esteve directamente envolvido como Controlador de Missão e mais tarde Director de Voo (Flight Director). É dessa posição que transmite ao leitor uma perspectiva completamente nova da atmosfera vivida no MCC durante os meses de preparação para uma missão e as peripécias de suporte às tripulações já em viagem.
Apesar de ter comprado o livro na expectativa mais técnica desse grande feito, também fiquei agradavelmente surpreso pelas descrições do ponto vista organizacionais e de gestão de projectos dadas pelo autor.
Do ponto vista técnico há histórias deliciosas de eventos que correram mal ou podiam abortar missões. Sem querer estragar a surpresa existem alguns que após leitura ficaram na memória: 
  • um lançamento surreal da Mercury que voou 10 cm mas que depois voltou aterrar sem explodir.
  • episódio da energia eléctrica ter ido a baixo no centro de controlo.
  • uma missão prestes a abortar mas que foi resolvido pelo agora famoso botão "SCE to AUX" mas que na altura ninguém sabiam que existia.
  • a conhecida missão Apollo 13.
De todas as missões descritas no livro, achei as mais "emocionantes" as iniciais da Mercury. Nessa altura tudo era desconhecido, precisava de ser inventado e finalmente testado. Começava pela grande questão se era possível ou não um homem sobreviver no espaço em ausência de gravidade. Mas para as equipas de suporte havia o grande tormento de que não haver um manual do que fazer. Quais os passos que devessem ser seguidos antes de lançar um foguetão e checklist durante uma missão. Outro desafio curioso era como manter a comunicação constante com os 13 centros de controlo espalhados pelo todos os continentes e em barcos "perdidos" no imenso oceano Pacifico. Para terminar, há sempre alguma referência aos computadores da altura. Basicamente a NASA recebia qualquer protótipo com semanas após estarem prontos e eram logo colocados a funcionar 24h por dia. Existe referências ao problema que era quando as máquinas "crashavam" ou eram descobertos bugs, o que automaticamente significava fins-de-semana de trabalho extra.
Após esta leitura sobre o problemas das comunicações e das capacidades informáticas da altura, não posso deixar de contemplar o meu obsoleto portátil com o qual estou a escrever este texto. Computadores com um milésimo da capacidade colocaram o Homem na Lua.
Do ponto de vista organizacional e de gestão de projectos há pormenores que não passam nos documentários:
  • as semanas de trabalho de 60 horas antes de cada missão,
  • as milhares de horas passadas em simulação (astronautas e controladores) e uma equipa de simulação sempre a desafiar os controladores com novos incidentes,
  • a actualização diária de manuais de operação em caso das coisas correr mal e de checklists das etapas para cada missão,
  • as discussões da cadeia de comando entre os representantes dos astronautas e os controladores,
  • também o que fazer se as coisas correrem mal, quem deve estar presente, haver disponibilidade total e "on site" de todas as empresas subcontratadas e quem tem a autoridade para tomar uma decisão final.
É fascinante as similaridades das atribulações e percalços que passou o projecto de há 40 anos atrás com os actuais. No meio das descrições das discussões que havia ou do processo de resolução de problemas, Gene Kranz vai deduzindo alguns padrões e regras universais as quais contribuíram para o sucesso de cada missão. Este livro provavelmente deve o seu relativo sucesso de vendas, por se enquadrar no género de gestão de projectos.
Com base nisto recomendo este livro o qual quem estiver envolvido em áreas de desenvolvimento e de gestão de projectos de engenharia, irão certamente encontrar paralelos.