segunda-feira, 14 de maio de 2007

Mergulho Mar Vermelho (resumo da viagem)

Ao fim de 20 horas de viagem, 3 viagens de avião, 2 corridas de minibus (com um pneu furado na A1) e finalmente 1 bote de borracha, chegava finalmente ao destino. Estava em Hurgada, a embarcar no M/Y Infinity. Começava a expedição ao Mar Vermelho.
O Infinity levou-nos a cada local de mergulho. Como as distâncias são demoradas, não voltamos a terra nos dias seguintes. Mas o barco tinha todas as condições nos albergar em mar alto, por isso nunca me queixei de falta de espaço ou de privacidade (eram 20 mergulhadores e 15 tripulantes).
Um dia típico a bordo consistia em acordar as 06:30, para o primeiro mergulho da manhã. Depois pequeno almoço, dormir, acordar para o mergulho das 11:00, almoço, dormir, mergulho às 16:00, dormir, mergulho às 19:00, jantar ... e finalmente dormir para recuperar de um dia intenso.
Mas vamos ao que interessa ... os mergulhos!
Para começar, estavam presentes no barco dois guias de mergulho, Juan e Ania. Este casal tinham como tarefa escolher os locais de mergulho para o dia seguinte, fazer os briefings sobre o que nós íamos ver, avisavam dos potenciais perigos e medidas de precauções e finalmente mergulhavam connosco sempre atentos a qualquer eventualidade.
O primeiro mergulho foi Sha'ab El Erg, um recife baixo (~13 metros). Foi um mergulho de "aquecimento" para os próximos dias e de aperitivo para o que nos esperava. Serviu para nos ambientar às condições do mar e ao equipamento. No meu caso consistiu em acertar o lastro (7kg, 1 a mais que cá no Atlântico) e ao novo fato de mergulho. A água estava a uns muito confortáveis 23ºC. Mas não perdi muito mais tempo com isto. Ao fim de um minuto na água, já estava a ver mais peixes que todos os meus 20 mergulhos anteriores cá em Matosinhos. Parecia que estava a mergulhar no aquário do Oceanário de Lisboa, tal era a riqueza de vida e de cor. O tempo passou a correr tal estava o meu cérebro a processar todos os diferentes animais (peixes palhaços, peixes imperadores, raias, etc) que via. Houve mais mergulhos nestes cenários de recife (Gota Abu RamadaSmall CrackRas Ghozlani,Bluff Point). Em cada um haveria sempre um nova surpresa de vida marinha (tartarugas, golfinhos, moreias, ...).
Um fenómeno que não estava à espera mas pude sentir e visualizar é o efeito das termoclinas na água.  Junto aos recifes, existe uma massa de água à superfície, que pouco se desloca. Esta fica a aquecer ao longo do dia por efeito do Sol. Quando esta massa de água quente entra em contacto com a água fria à volta do recife, cria um efeito visual estranho, em que a paisagem fica distorcida. O calor da água sente-se instantaneamente.
Pela primeira vez fiz mergulhos nocturnos. A sensação é ligeiramente diferente. Estava mais alerta antes de entrar na água. Mas depois de agarrar a lanterna e começar a apontar para o horizonte, ficava completamente abstraído. Onde o foco de luz batesse no meio da escuridão, aparecia sempre qualquer coisa surpreendente. Apontava para o coral, e surgiam cores novas que nunca tinha reparado durante o dia, apontar para as medusas e estas ficavam roxo flurescentes, apontar para o horizonte e surgiam cardumes enormes de peixes.
O único sobressalto que ocorreu num desses mergulhos nocturnos foi ter me enganado no barco entre muitos, quando cheguei à superfície. Equivoco perfeitamente normal naquelas bandas para os "amadores" como eu. Felizmente o meu barco estava só a uns metros ao lado.
O Mar Vermelho não é só vida marinha. É também um cemitério de navios. Existem muitos locais com corais a menos de 1 metro da superfície. Estes funcionam como verdadeiras ratoeiras para os navegadores mais distraídos. Isto justifica a existência de tantos naufrágios no Mar Vermelho em águas pouco profundas. É por isso que metade dos mergulhos da expedição são em naufrágios.
Destes o Thistlegorm é a "cabeça de cartaz". É considerado dos melhores naufrágios do mundo. É um cargueiro afundado durante a 2ºGuerra Mundial com um carregamento variado de material bélico: locomotiva, tanques, camiões, motas, botas, etc, perfeitamente visível de fora. Está a uns acessíveis 30 m de profundidade e o seu deck acentou na areia na horizontal. Só este naufrágio mereceu três visitas e também justificava a existência de mais 4 iates com outros mergulhadores.
Mas este acabou por ser vitima do seu próprio sucesso. Mergulhar nele acabou por ser o incómodo, tal era a "poluição" visual e sonora, provocada pela quantidade absurda de colunas de bolhas de ar, de todos os mergulhadores que por lá andavam.
Um outro local de culto, mas mais pacífico, é o recife Sha'ab Abu Nuhâs. Neste encontram-se vários naufrágios separados por poucas centenas de metros. Desses visitei Chrisola KCarnaticGiannis D.

Como ainda não tinha mergulhos suficientes de experiência, não me deixavam penetrar no interior dos naufrágios. Só no Carnatic, devido à forma aberta e facilmente acessivel do porão de carga, me deixaram aproximar. Apesar de extremamente fácil de "navegar" não deixava de me preocupar que aquilo podia desabar a qualquer momento.

O Giannis D é extremamente popular a julgar pela quantidade de barcos logo por cima dele. Ao vir para a superfície, enquanto fazia o patamar de segurança, só se via as sonoras hélices rotativas dos zodiacs, a passar em velocidade. Quando cheguei finalmente à superfície, parecia cenário de operação militar, tal era o movimento dos barcos a recolherem freneticamente grupos de mergulhadores espalhados por todo lado.

E de repente, tinha terminado a expedição só ao fim de 14 mergulhos. Muito poucos para tudo o que o Mar Vermelho tem para oferecer mas mais que suficientes para ficar fascinado e a desejar por mais para o ano.
eu